* Quadro Cupido y Psique – Jacques Louis David

No mito, a mais nova e bela das três irmãs, não se contenta com a felicidade e dedicação de Eros, seu marido. Quer mais, deseja conhecê-lo por completo, ver sua face, ao ponto de quebrar sua promessa.

Eros havia lhe imputado uma condição para que ele e sua amada pudessem permanecer juntos: Psiquê jamais poderia ver o rosto de Eros! Esta condição não tinha como propósito, esconder a feiura do deus, mas, ao contrário, sua beleza incomparável.

A natureza do pacto era de que Psiquê se apaixonasse por aquilo que ele é e não pela sua bela aparência.

Eros simboliza o deus do amor, em sua completude. Abarca desde os apetites sexuais, a busca pelo simples prazer físico, até sua forma sublimada, “o amor pelo outro como ele é”.

Tratando de Eros, Lacan faz uso do Banquete de Platão, onde se discute a respeito do amor, para ilustrar seu objeto a. Existe algo em Sócrates que desperta em Alcebíades a posição de amante/desejante.

Alcebíades elogia Sócrates com sinceridade de quem o ama/deseja, os pontos altos do elogio se referem ao amalga que, segundo Alcebíades, encontra-se em Sócrates:

“Sócrates é semelhante a esses Silenos que se encontram nas oficinas dos estatuários, e que os escultores representam com avenas e flautas nas mãos: e, quando se abrem essas estátuas, vê-se que no interior se aloja um deus”.

“Atentai, porém: este exterior (ignorantão de um tolo) o envolve como a estátua de Sileno, e, se abrirdes e contemplardes o seu interior, quanta sabedoria, companheiros, havereis de encontrar.”.

Divindades campestres eram os Silenos (de Sileno), personificação da vida selvagem. Homens maduros de aparência feia e grotesca, frequentemente embriagados de desejos bestiais, contudo, portadores de conhecimentos secretos.

O que encantou Alcebíades e despertou seu amor, foi esse agalma. Existe sempre algo para além daquele que desperta o desejo, existe um agalma, um enfeite/adorno que o faz desejar. Platão, no Banquete, coloca o agalma como o paradigma representativo da ideia do bem.

Alcebíades, ao findar seu elogio, estando a sós com Sócrates em seu divã, propõe que se unam em relação sexual e, assim, ele poderia alcançar esse tesouro, este bem escondido no interior de Sócrates. Mesmo rejeitado diz que, “do divã de Sócrates não me levantei menos puro do que se houvesse dormido com meu pai ou meu irmão mais velho”. Diante da negativa, não alcançando esse objeto, não pôde desprezar Sócrates e continua a exaltar seus grandes feitos, desejante…

Este objeto faltante, é referido por Lacan no seminário XI – “eu te amo, mas, porque inexplicavelmente amo em ti algo que é mais do que tu – o objeto a” e “o objeto a: não que seja o objeto que “eu quero”, mas sim o objeto que me faz desejar”.

Esse objeto a, um bem que não chegou a ser possuído, aponta para uma falta que marca a estrutura desejante deste sujeito.

Por trás da feiura de Sócrates, havia o agalma que despertava o desejo de Alcebíades.

Apesar da completude de Psiquê, havia algo que ainda estava oculto e que a despertou.

No seminário VIII, Lacan trata deste objeto precioso que supostamente está contido no ser amado/desejado e que a falta do amante/desejante seria suprida pelo poder daquele. Alcebíades acredita que ao deitar-se com Sócrates, tornar-se um, poderia ter sua falta suprida, suprida por aquele objeto tão caro que se encontrava no interior daquela casca grosseira. O fim de Alcebíades é ser mesmo desejante e como poetizou Mario Quintana, em A Eterna Busca,

“Só o desejo inquieto e que não passa,

faz o encanto da coisa desejada.

E terminamos desdenhando a caça,

pela doida aventura da caçada.”,

É o desejo inquieto e que não passa, que adorna, é agalma, da coisa desejada…

 

Samuel Gouvêa Pereira

 

PARTICIPE DA JORNADA