Seguindo a lógica do texto anterior, A Posição do Analista, e também do texto, Psicanálise e Música, onde falei um pouco sobre a dinâmica do par analítico, do dançar com o outro e mais, conforme a música do outro, não posso deixar de abordar algumas das muitas regras foram legadas por Freud e seus sucessores. Acredito que, Bion, tenha sido um dos maiores colaboradores no que diz respeito à posição do analista. Com isso, seguirei expondo as condições básicas que compõem este sujeito “dito” analista com base nas perspectivas de Freud e de Bion.

Freud nos deixou alguns princípios fundamentais que, segundo ele, eram condições sine qua non para uma psicanálise. Enquanto umas se referem precisamente ao analista, outras falam do paciente e da dinâmica no setting.

Prosseguirei expondo estes princípios ou regras, ora relacionada ao analista, ora ao analisando.

– Regra fundamental ou livre associação, trata-se de um compromisso onde o analisando assume uma posição que consiste em exprimir de forma indiscriminada tudo quanto surgir em seus pensamentos, deve manifestar suas ideias sem julgar relevância, sem julgamentos morais ou religiosos, deve-se apenas verbalizar. Para que o rio heracliniano esteja em constante devir, antes é necessário que este flua livremente. A livre associação deve ser como um rio que flui e, não importando os obstáculos que encontre, sempre segue ultrapassando qualquer barreira.

– Regra da abstinência, trata de uma atitude adotada pelo psicanalista. Abstenção significa: não intervir, não pronunciar, conter-se, privar-se de, renunciar. Quando aplicada ao processo analítico, abstinência consiste na condição do analista posicionar-se sem qualquer (abster-se) outro “interesse” que não seja o de interpretar, captar o sentido inconsciente. Estão vetados julgamentos, proibição e aconselhamentos de qualquer espécie, sejam sociais, sexuais, religiosas ou ideológicas. (Veja mais no artigo, Sem Escândalos).

– Regra da neutralidade, refere-se à necessidade do profissional não se enlaçar de forma afetiva com o paciente. Para Freud, o analista deveria se posicionar como um espelho onde o analisando ao “expressar” sua fala e demandas,  joga um conteúdo em direção ao analista e este as reflete sem atribuir valor ou afeto. É muito comum os valores e afetos no que diz respeito à religião, ideologias etc. O espelho reflete somente aquilo que lhe é mostrado sem alterar detalhes do objeto, mas revela detalhes que antes não foram alvo de atenção. (Leia o artigo, O Espelho de Sócrates).

– Regra da atenção flutuante, talvez esta seja a regra que apresenta maior dificuldade de compreensão e aplicação. Trata-se da escuta onde o psicanalista não deve, a priori, privilegiar qualquer conteúdo ou elemento do discurso, sem graduações de relevância ou importância. É necessário que se deixe a atividade inconsciente funcionar o mais livre possível e, assim, suspender tudo quanto possa motivar a atenção em determinada direção. Esta regra corresponde à outra face da moeda no que diz respeito à associação livre, proposta ao analisando. Enquanto o paciente deve fluir livremente em sua fala, o analista deve fluir livremente em sua atenção, sem que nenhum dos dois, o par analítico, privilegiem algum conteúdo.

Ainda sobre a posição do analista, Bion, tem muito a nos acrescentar, segundo o autor todo processo analítico tem uma natureza vincular, ou seja, toda analise é um vínculo entre duas pessoas e estas deverão encarar muita angústia diante de toda a análise. Ante esta caminhada terapêutica, Bion, destaca a necessidade de algumas condições necessárias, mínimas, à pessoa do analista, vejamos:

– Um estado permanente de descobrimento, do Latim discooperire, destapar, formado por dis – ação oposta, mais cooperire – cobrir, tapar, enterrar. Por vezes, vemos alguma analogia entre a psicanálise e a arqueologia, quem nunca ouviu a expressão de que o analista é um arqueólogo do inconsciente?

Interessante que o arqueólogo possui um constante estado de descoberta, procura-se sempre algo, por vezes acaba descobrindo o inesperado, assim ocorrem grandes descobertas arqueológicas. O analista, analogamente, está sempre na pista, caso se perca este estado permanente de descobrimento, a análise está seriamente comprometida. O analista é um investigador, como Sherlock Holmes, busca a solução de seus casos pelo saber implícito de pistas encontradas por métodos bem particulares.

– Capacidade de ser continente, aliado a uma “função-alfa”, grosso modo, o analista deve ser continente para aqueles conteúdos trazidos pelo analisando, sua fala deve encontrar terra firme. Encontrando-se nesta posição de acolhimento, continente, o analisando abre um espaço interno (conteúdo) que proporciona uma estruturação de novos significados a partir da função alfa do analista, aspectos de amor na análise e criatividade, por exemplo. Não basta receber, é preciso devolver.

– Capacidade negativa, o analista deve ter a condição de suportar, sentimentos negativos e dolorosos, por exemplo, a angústia de não saber. Da mesma forma que o analisando pode estar “tendo sucesso” e muito “feliz”, pode estar “fracassando” e “infeliz”, cabe ao analista uma posição tolerável.  (Leia, A Posição do Analista I).

– Capacidade de intuição, a esta cabe uma maior compreensão da palavra, por encontrarmos muitos significados errôneos aplicados ao termo, sendo, mais uma vez, necessário à etimologia para o resgate do sentido original.

Do Latim intuituio – um olhar, uma consideração”, de intuitus, particípio passado de intueri – olhar para, considerar, avaliar, de in – aqui como para, sobre, mais tueri – olhar, vigiar, que nos deu também a palavra “tutor”.

– Conhecimento imediato e claro sem recorrer ao raciocínio, conhecimento claro, direto, imediato e espontâneo da verdade. – Michaelis.

Para alguns filósofos intuição é:

– “Denominamos intuição essa capacidade de darmos conta dos fatos espaciais e temporais. Intuímos o sensível (não apenas).”. – Mario Ferreira dos Santos.

– “Todo o conhecimento humano começou com intuições, passou daí aos conceitos e terminou com ideias.”. – Immanuel Kant.

– “Intuição é mais forte que a Razão, devemos sempre dominar a nossa impressão perante o que é presente e intuitivo. Tal impressão, comparada ao mero pensamento e ao mero conhecimento, é incomparavelmente mais forte; não devido à sua matéria e ao seu conteúdo, amiúde bastante limitados, mas à sua forma, ou seja, à sua clareza e ao seu imediatismo, que penetram na mente e perturbam a sua tranquilidade ou atrapalham os seus propósitos.”. – Schopenhauer.

Nesse sentido, o analista deve ter uma capacidade intuitiva desenvolvida, deve ter uma certa facilidade de reconhecimento por presença.

– Estado de paciência e de empatia, o inconsciente é atemporal, todas as coisas estão presentes e elementos da infância podem se associarem em sonhos recentes, por exemplo. Esta característica atemporal já serve como analogia de que o tempo é do paciente e cabe ao analista a paciência no caminhar.

Empatia do Grego empatheia, formado por en – em, mais pathos – emoção, sentimento. A ideia é estar “dentro” do sentimento alheio, é sentir com. (Veja o artigo, Sem Espantos).

– Necessidade de que a mente do analista não esteja saturada por memória, desejo e ânsia de compreensão imediata, está necessidade complementa a regra de atenção flutuante de Freud. Para que o analista possa se colocar em uma posição que não privilegie determinados elementos, sua mente deve estar livre para fluir e desta forma não saturada por memória, desejo e ânsia de compreensão.

– A importância como pessoa real que serve como um novo modelo de identificação para o analisando, o analista não deve ser um modelo integral no qual o analisando deva ser moldado, o sentido de pessoa real baseia-se, na minha concepção, como referência na sua relação com o inconsciente, insights e inspirações. Aos poucos o analisando deve, naturalmente, passar a ter um estado mais analítico e compreensivo das suas próprias questões.

Concluo com a ideia de que o analista deve ser “humano, demasiado humano”, todas as regras tratadas são, na realidade, formas de uma aproximação sincera do sujeito. Sem estas, o processo terapêutico é pervertido e não se faz psicanálise, mas qualquer outra coisa.

 

Samuel Gouvêa Pereira

 

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