A posição do psicanalista, diante do processo analítico, só pode ser a de nada saber. Somos completamente ignorantes considerando a subjetividade e complexidade, a mitologia individual daquele sujeito que se apresenta a nós, sendo assim, só temos a “aprender”.

Gostaria de enriquecer este ponto, tomando emprestadas duas máximas filosóficas, para isso, é importante compreender que o princípio para o saber, ou melhor, para a possibilidade da construção de um saber, é assumir a posição de que nada sabemos sobre cada nova situação, incluindo o processo analítico que de fato segue o mesmo princípio e, a dúvida é a via mais acessível para levar a sabedoria.

Tomo, então, a consagrada frase de Sócrates: “Quanto a mim, tudo que sei é que não sei nada”. Quando assumimos a postura de que o que há em nós é o não saber, estamos prontos para a possibilidade de construir algum conhecimento. Lembrando que por vezes, o nada saber se constitui o único saber, quer dizer, saber que não se sabe. Toda pré-potência é prejudicial para a construção de um conhecimento, isso no que abrange toda a vida cotidiana e não se limita apenas, ao enquadre analítico. Claro que existem conhecimentos prévios como a teoria, conceitos e técnica, por exemplo, mas sobre aquele que se apresenta, nada! Agindo de forma contrária, provavelmente, o tratamento será estéril.

Cito ainda, Friedrich Nietzsche: “As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”. Não basta a posição de não saber, uma convicção precipitada é igualmente prejudicial e, na dialética do SSS (Sujeito Suposto Saber), o analista pode acabar ocupando este lugar. Sendo assim, mais uma vez, devemos entender que não temos conhecimento prévio sobre o universo de cada sujeito que penetra o setting e que nossas convicções muitas vezes, serão inimigas no processo analítico.

Perante essas premissas, devemos nos deparar no “sem memória e sem desejo” de Bion, conforme nos foi legado: “Ocorre que quando a mente está preocupada com elementos perceptíveis aos sentimentos, ela fica muito menos capaz de perceber elementos que não podem ser “sentidos”. Seguindo ele completa: “É importante que o analista evite a atividade mental – memória e desejo – tão prejudicial à sua aptidão mental quanto o são algumas formas de atividades físicas para a boa forma física”.

Memória pode ser identificada como uma ligação ao passado ao ponto que Desejo está ligado ao futuro, lembrando ainda que, a ânsia por interpretação também é um desejo. Esses elementos ocupam espaços em nossas mentes atrapalhando a comunicação entre inconscientes, ao que Freud chamou de Atenção Flutuante. Ouso dizer que, sem memória e sem desejo, sem passado e sem futuro, é penetrar na dinâmica do inconsciente que é atemporal.

A Atenção Flutuante é para a pessoa do analista equivalente a Livre Associação para o analisando, sendo, então, segundo Freud, “o modo como o analista escuta o analisando não deve privilegiar, a priori, qualquer elemento do seu discurso, o que implica que deixe funcionar o mais livremente possível a sua atividade inconsciente e suspenda as motivações que dirigem habitualmente a sua atenção.” Foi o que Freud (1914) chamou de “cegar-se artificialmente” para poder enxergar melhor.

Enfim, é de grande importância na prática clínica à postura de “ignorância”, não tirarmos convicções precipitadas, manter a mente livre de memórias e desejos para que a comunicação entre inconscientes, a atenção flutuante, possa fluir no processo analítico, propiciando assim, as interpretações e os insights.

 

Samuel Gouvêa Pereira

 

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