Bem sabemos que a técnica do brincar e sua linguagem são de fundamental importância para a análise infantil, foi Melanie Klein, quem efetivamente abriu as portas para o tratamento com crianças. Ainda que, Freud a tenha precedido com o caso do pequeno Hans, de forma indireta, já que o analisava a partir dos relatos feitos pelo pai da criança.

A técnica do brincar teve início partindo das observações de Klein no processo analítico com crianças, estas se ocupavam espontaneamente de seus brinquedos e criavam as mais diversas brincadeiras e jogos.

Dessa forma, aquilo que parecia ser algo despretensioso, despropositado e sem grande relevância, dá lugar a uma nova técnica planejada. Segundo Klein, a variedade de número e tamanho dos brinquedos comportava uma série de usos, exprimindo de forma detalhada as fantasias e experiências infantis, o que permitia a interpretação das mesmas.

A representatividade simbólica e a sequencia interpretativa dos jogos empregados é comparada pela autora aos sonhos, demonstrando assim, seu valor de significação.

Sendo o inconsciente estruturado como uma linguagem (Lacan), Klein, percebeu na complexidade do brincar sua potencialidade de manifestar conteúdos inconscientes.

A investigação psicanalítica se dá pelos fenômenos lacunares, Lacan chamou estes de formações do inconsciente, a saber: sonhos, atos falhos, chistes e sintomas, que produzem no discurso consciente uma descontinuidade. Melanie Klein inovou valendo-se do brincar como método investigativo precoce, uma vez que, esses fenômenos lacunares não poderiam ser vivenciados, ou relatados na tenra idade. Com sua prática e técnica, a psicanalista identificou um mundo interno composto por um vasto repertório de personagens o que proporcionaria a manifestação da trama inconsciente de seus pequenos pacientes, acreditava que com a interpretação constante desses jogos as angústias diminuiriam.

A partir dessa nova perspectiva a psicanalista procurou demonstrar a existência de experiências relacionadas aos impulsos sexuais, angústias e profundas desilusões já nos primeiros anos de vida. Klein, constatou ainda que, tanto o Complexo de Édipo, quanto o superego eram construções evidentes em uma idade ainda mais remota que o pressuposto da época, mesmo depois de Freud.

A análise kleiniana tem como eixo a tríade: angústia, defesa e fantasias inconscientes. O prazer encontrado no brincar não se resume a gratificações devido aos impulsos de realização dos desejos, mas também pelo domínio da angústia.

Freud descreveu como um bebê de dezoito meses (seu neto) descobriu/inventou uma forma de controlar sua angústia, derivada da ausência de sua mãe, na brincadeira com um carretel de madeira atado a um pedaço de barbante no seu famoso jogo do Fort-Da, enquanto o carretel desaparecia de sua vista, pelo seu arremesso, o bebê dizia “láaaa” (“o-o-o-o”) quando este retornava, o neto dizia um alegre “aí” (Da). Vemos ainda, na mesma brincadeira, a presença da fantasia uma vez que o bebê transfere para o objeto suas representações e, por último, o bebê busca no brincar defender-se do sofrimento desta ausência.

Por meio do brincar a criança consegue deslocar processos intrapsíquicos para o exterior, nesse ponto pode-se dizer que na tentativa de dominar a angústia, pelos jogos, com o deslocamento de instintos e medos internos para o mundo externo o desenvolvimento do ego é estimulado.

No que tange a análise infantil, a começar com a técnica do brincar e sua análise, tem-se por objetivo dominar as angústias que lhe roubam grande parte da energia psíquica causando-lhe sofrimento.

Com base no conceito de objeto interno, fica claro, opondo-se ao que foi levantado por alguns filósofos como Kant, por exemplo, a tentativa de formular uma realidade puramente subjetiva, sem ingresso ao mundo real, na coisa em si, e sim nas suas aparências. Acesso ao mundo real é algo que não pode ser negado como marca primordial, marca esta que pressupõe a falta (afinal ao nascer somos de imediato imergido na realidade e separado do mundo uterino), uma entrada ao mundo sensível tal como é. Sendo assim, existe uma dialética entre este e o mundo interno habitado por uma série de representações (objetos internos), as vivências experimentadas partem de dados empíricos, por intermédio dos sentidos, do mundo externo, e estes dados são, de certa forma,  influenciados pelas nossas representações.

Klein além de contribuir para a evolução da psicanálise contribui, à vista disso, para a filosofia.

A técnica do brincar se mostra uma grande ferramenta e sem dúvida foi uma “descoberta” inestimada, ali a criança representa através de jogos lúcidos suas vivencias inconscientes.

Interessante pontuar que o inconsciente é atemporal e infantil por natureza, e sendo assim, estamos tratando sempre com o infantil em análise.  Dito isto, as fundamentações de Klein devem se estender aos adultos, uma vez que, irão repetir seus “modos de brincar” por toda a vida. No enquadre terapêutico encontramos um adulto com todas as suas formações do inconsciente e uma criança repetindo suas brincadeiras da infância.

Samuel Gouveper

 

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