Quais caminhos deve tomar um processo analítico?

Wilfred Bion, psicanalista britânico, entende que o centro da caminhada terapêutica – “não é o de o paciente vir a ficar igualzinho ao analista, e estar, curado igualzinho ao seu analista, mas sim, o de ele vir a tornar-se alguém que está se tornando alguém!”.

A psicanálise sempre nos apresenta uma leitura densa e erudita, aforismos enigmáticos, por muito aparentemente contraditórios, e paradoxos. Aqui nos importa pontuar que, apesar de todo discurso, não devemos perder de vista uma outra cena que se desenrola por trás daquilo que se pode pensar como palco principal e, por conta desta fala dupla, atravessada por um Outro que fala, tudo toma uma roupagem mais “complexa”.

É o que acontece com o “alguém que está se tornando alguém”, afinal, já somos alguém, não somos?

Se denominar alguém já nos instala, de imediato, neste palco principal (não de primazia, mas de atenção imediata) que tem como protagonista o Eu. É exatamente neste palco que se desenrola a peça onde atuamos, os papéis que acreditamos representar, é aqui que, “penso, logo existo”, é o lugar do cogito. O discurso bem estruturado (ou não) pelo sujeito do enunciado, memória, cognição, percepção, atenção etc, são atribuições deste alguém.

Seria essa cena, este lugar onde se atua, uma mentira?

Jamais! Existe sempre a verdade intrínseca do sujeito em todo discurso, conforme Lacan – “digo sempre a verdade: não toda, porque dizê-la toda não se consegue. Dizê-la toda é impossível, materialmente: faltam as palavras. É justamente por esse impossível que a verdade provém do Real”.

O sentido do alguém que está se tornando alguém, deve tocar ou aproximar-se da sentença de granito, Nietzsche, “torna-te quem tu és”!

Quem está familiarizado com a psicanálise, conhece a inversão do cogito que ela instaurou, “existo onde não penso”, esta nova posição demarca o lugar do sujeito do inconsciente.

A palavra sempre manifesta algo velado, nossa fala vai para além daquilo que fala. Como acontece nas manifestações do inconsciente, sonhos, sintomas, chistes, atos falhos, etc. Lacan nos diz, “o inesperado é que o próprio sujeito confesse sua verdade e a confesse sem sabê-lo.”.

O alvo destacado por Bion, dentre outros que cabem à análise, é que nos tornemos mais sujeitos, mais responsáveis diante do que somos, buscarmos nossa verdade, traçar uma rota que vá para além daquele discurso vazio e, assim, seguir tornando-se alguém (sujeito).

Para finalizar, cito outra construção maestral do autor discutido, “em algum lugar da situação analítica, sepultada sobre massas e neuroses, psicoses e demais, existe uma pessoa que pugna por nascer. O analista esta comprometido com a tarefa de ajudar a criança a encontrar a pessoa adulta que palpita nele, e por sua vez, mostrar que a pessoa adulta ainda é uma criança”.

Seguiremos caminhando nas trilhas do nosso desejo, na busca de, quem sabe, nos tornarmos aquele que somos!

Samuel Gouvêa Pereira