“Todo amor é recíproco, mesmo quando não é correspondido”. – Jacques Lacan.

Lacan, como qualquer bom analista, estudioso ou pesquisador, era apaixonado pela origem e significado das palavras. Por essa paixão, brincava e fazia jogos linguísticos que, por muitas vezes, tornam seus escritos de difícil compreensão.

Sou favorável ao uso direto e simples das palavras, sempre que possível, para dar um sentido mais próximo das coisas, por outro lado, deve-se considerar o estilo individual do sujeito que escreve. Como bem disse Platão na República – a maneira de dizer e o próprio discurso dependem do caráter da alma.

Sendo assim, é condição sine qua non para a compreensão de Lacan, e de qualquer autor, o uso indiscriminado da etimologia.

Sem a busca exata do sentido da palavra e seus desdobramentos culturais e históricos, além da aproximação da língua, dificilmente se entenderá o sentido real que o autor procurava expor, muito menos Lacan.

Essa pequena argumentação a favor da busca do sentido já vale o texto, mas como exemplo vou analisar o seguinte aforismo lacaniano:
“Todo amor é recíproco, mesmo quando não é correspondido.”. – J. Lacan.

Lacan tinha essa peculiaridade que mais parecia um hobbie, utilizava-se de temas polêmicos, difíceis e complexos para atrair a atenção, funcionou e continua funcionando, quem negará a excentricidade de Lacan?

Voltando a citação que desperta muita discórdia, o que o autor queria dizer?

Recíproco vem do Latim RECIPROCUS, “alternante, respondendo da mesma maneira, mútuo”, formado por RE- “para trás”, mais PRO- “à frente”.

Parece estar claro, diante do aforismo, que Lacan buscava dar o sentido pautado no RE/PRO, “para trás” e “para frente”.

O recíproco de Lacan envolve duas pessoas, uma ação mútua, ou seja, que se desenvolve em troca de alguma coisa. Delimitaremos o sentido como: existe algo em ti que desperta algo em mim.

Mesmo havendo um sentido de correspondência, que deve se completar no segundo termo relevante da frase, a natureza de corresponder começa a delimitar-se.

Apesar da proximidade entre Recíproco e Correspondente, devemos destacar os seguintes significados em relação ao segundo termo, para dar maior exatidão ao texto.

Corresponder: Apresentar equivalência em relação a;
Responder a (gesto, favor, sentimento etc.) de maneira semelhante; retribuir;
Estabelecer ligação com (outrem) através de carta; cartear-se.

Os pontos chaves do significado que devem dar sentido a frase, são os de: equivalência, responder semelhantemente na mesma proporção, estabelecer uma ligação.

Nesta posição da análise, a definição já está, de certa forma, dada – Existe algo em ti (RE), que mesmo não sendo proposital e consciente, desperta, envolve e expressa uma ação de resposta em mim (PRO), não necessariamente um sentimento correspondido.

Uma analogia útil é a relação mãe bebê, a criança recém-nascida recebe de sua mãe “algo” que a desperta (afago, cuidado, alimento, voz), por ainda não estar inserida no simbólico, na linguagem, no sentido, na precocidade do ego, o bebê (diz-se) não ser correspondido, o que vai ser encarado como correspondência, na verdade, é uma relação instintual e pulsional.

Lacan descrevia esse movimento de troca, de fluidez entre duas pessoas, que despertaria o sentimento em ambos como sendo correspondido, quando o amor não é mútuo deixa de ser correspondido e passa a ser apenas recíproco.

Algo em você faz-me amar-te, se não houvesse razões para tal sentimento por que te amaria ao invés de odiar-te ou ser indiferente?

Se não houvesse nada que viesse gerar essa troca, ela não se estabeleceria. Mas, se sou tão irresistível ao ponto de te despertar de forma igual, então seremos correspondidos e recíprocos!

De forma poética poderia dizer:

Se te amo e tu me amas
Correspondemos este amor.
Se não me amas
Mesmo diante do meu amor
Sinto não despertar-te
Para me corresponder!

“Se soubesses como eu gosto do teu cheiro, teu jeito de flor, não negavas um beijinho a quem anda perdido de amor.”. – Tom Jobim.

 

Samuel Gouvêa Pereira

 

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