Paulo, o apóstolo mais erudito de Cristo, em sua defesa na presença do rei Agripa, é vítima da seguinte acusação feita por Festo: Paulo, as muitas letras te fazem delirar.

As poucas letras fazem de nós medíocres, ou seja, mais um na massa mediana que nada faz de diferente. Diante de um panorama tão precário, sem cultura, sem muitas letras, toda e qualquer sociedade definha a níveis cada vez mais baixos. Um mundo de poucas letras que de fato é um delírio.

Se recusarmos o conselho de Prometeu a seu irmão Epimeteu – “se conformarmos nossa maneira de viver com o exemplo comum, seremos de preço comum e nunca mais desfrutaremos nobres alegrias nem aquelas dores que enriquecem a alma”, dificilmente podemos nos erguer para além da pobreza que estamos familiarizados a enxergar.

Quando trato da busca pelo conhecimento, da elevação acima do comum, sempre sou levado a refletir no mito platônico da caverna. Ao contrário do que se pensa o mito não demarca a passagem do mundo sensível ao inteligível, mas a passagem do mundo da cultura e da opinião para a realidade das coisas.

O prisioneiro filósofo está habituado a ver sombras de imagens humanas e de construções humanas, escuta vozes e diálogos, todo um universo distorcido, mas que não vai além daquilo que é fruto da presente sociedade. Quando liberto, em primeiro lugar, sofre, sente dor, a vista do sol ofusca sua visão. Mais tarde está familiarizado e admirado não pelas ideias, pelo inteligível, mas pela visão das próprias coisas, da realidade. Este homem passou do conforto daquela penumbra, do frescor da caverna e da presença dos seus companheiros para conhecer a realidade tal como ela se apresenta e estar acima dos habitantes do buraco onde vivia.

Sócrates, em sua defesa, tinha como labuta a desconstrução “cultural” que seus inimigos criaram sobre sua pessoa, com o presente argumento, deixa claro qual foi sua postura – “Não tenho outra ocupação senão a de vos persuadir a todos, tanto velhos como novos, de que cuideis menos de vossos corpos e de vossos bens do que da perfeição de vossas almas, e a vos dizer que a virtude não provém da riqueza, mas sim que é a virtude que traz a riqueza ou qualquer outra coisa útil aos homens, quer na vida pública quer na vida privada. Se, dizendo isso, eu estou a corromper a juventude, tanto pior; mas, se alguém afirmar que digo outra coisa, mente”. Quando Sócrates começou a apresentar tudo quanto é virtuoso, deixou sua posição de conforto entre os atenienses e passou a ser perseguido.

Tanto Paulo, como o prisioneiro filósofo ou Sócrates, alcançaram um conhecimento acima dos seus conterrâneos, conhecer é conhecer o que não se sabe, por conhecer, um foi chamado de louco, outro torturado e, o último, condenados à morte.

Todo saber liberta, mas também expulsa de uma zona de conforto, nas palavras de Jesus – “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, nas palavras de Melanie Klein – “quem come do fruto do conhecimento, é sempre expulso de algum paraíso.”.

Por fim, buscando um análogo em Nietzsche – “aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.”.

 

Samuel Gouvêa Pereira

 

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