Na segunda tópica ou teoria estrutural, após propor a divisão topográfica (do grego topos – lugar) em consciente, pré-consciente e inconsciente, Freud demarca três instâncias psíquicas, id, ego e superego. No primeiro momento, aquilo que era inconsciente deveria se tornar consciente. Na medida em que segue na construção teórica e na prática clínica, ao se aprofundar na dinâmica do psiquismo, o pai da psicanálise vai esbarrando em algumas restrições e dificuldades uma vez que, o paradigma da primeira tópica era por demais estático, engessado. Neste momento, Freud, concebe a estrutura de três instâncias, agora, onde houver id e superego, o ego deve estar.

No presente texto falarei um pouco mais sobre o ego, quem é este? Ora, ego é o narrador da própria história, claro que atravessado. Trago à reflexão o cogito cartesiano – “penso, logo existo”, que tem raízes em um tal Santo Agostinho – “No entanto, quem quereria duvidar que existe, se lembra, compreende, deseja, pensa, sabe e julga? E que, mesmo quando se duvida de tudo o resto, não deve ter dúvidas acerca disto. Se não existisse o Eu, não poderia duvidar absolutamente de nada. Por conseguinte, a dúvida prova por si própria a verdade: eu existo se duvido. Porque a dúvida só é possível se eu existo.”. Ora quem (ego) pensa, logo toma consciência de si. Acontece que Freud inverte a lógica cartesiana e propõe – “penso onde não existo”, penso onde não tenho consciência, onde “não existo”, inconsciente.

O ego é responsável pelas atividades conscientes, memória, juízo crítico, percepção, conhecimento, atenção etc. Mas não se limita as funções conscientes, ou seja, é responsável ainda, por outras atividades inconscientes. É o ego responsável pelos vários mecanismos de defesa, como a repressão, por exemplo. Ali onde penso que não penso o ego está agindo, além do mais, a instância (ego) ainda é responsável por mediar às exigências de satisfação do id com as proibições e ameaças do superego, bem como, fazer a mediação com a realidade externa.

Tratando da observação do ego e seus mecanismos de defesa, Anna Freud, em seu livro O Ego e os Mecanismos de Defesa, destaca a forma como o ego se comportava diante de um processo de hipnose. Ao hipnotizar o paciente, o médico tinha por objetivo o acesso aos conteúdos inconscientes que traziam o sofrimento. O ego apresentava-se como um fator perturbador, deveria ter sua atividade “suspensa”, após a cessão de hipnose, quando algum elemento de material inconsciente aflorava à superfície da consciência de forma forçada, o sintoma desaparecia. Acontece que, pelo fato do ego não participar ativamente do processo terapêutico e, ter de “engolir” estes conteúdos inconscientes “goela abaixo”, logo se defendia contra esse material que lhe havia sido imposto, por fim, o trabalho terapêutico se tornava viciado.

Abandonada a hipnose, com o método da livre associação, o que ocorre é que o ego é convidado a calar-se e não obrigado. Ao se abster da crítica, das conexões lógicas, da moralidade e etc, o ego permanece em silêncio para que o id possa falar.

Por fim, o ego ainda pode ser tomado como objeto da libido, aí está Narciso. Apaixona-se e investe todo o seu amor em sua própria imagem refletida no espelho d’água, sem saber que o lago que reflete o objeto amado é também o local onde será sepultado.

 

Samuel Gouvêa Pereira

 

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