Muitos acreditam que o grande mérito de Freud foi ter descoberto o inconsciente, de fato esta crença já está no imaginário popular, ledo engano. É atribuída ao pai da psicanálise a seguinte frase: “os poetas e os filósofos descobriram o inconsciente antes de mim. O que eu descobri foi o método científico que nos permite estudar o inconsciente”. Freud, tendo declarado ou não a referida sentença, em nenhuma parte de sua obra tomou para si o mérito de descobridor do inconsciente. Devemos pontuar ainda que, Freud e Husserl foram alunos do filósofo alemão Franz Brentano e que este já considerava os estados mentais inconscientes.

Seguindo a ideia de que os poetas e os filósofos fizeram tal descoberta antes de Freud, abordarei a concepção leibniziana do inconsciente. Considerado por alguns o Aristóteles do século XVII, em resposta a John Locke, Leibniz escreveu o livro Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano, obra indispensável e que tomo como guia.

O filósofo não usa o termo inconsciente propriamente dito, mas fala da infinidade de “pequenas percepções que somos incapazes de distinguir em meio à multidão delas”, percepções estas que, passam por nós sem apercepção e sem reflexão. Essas percepções das quais não nos atentamos, por tantas razões, acabam por proporcionarem mudanças na própria alma.

Apesar de desapercebidas e de proporcionarem mudanças, essas pequenas percepções operam em nós por todo o tempo. Ocorrem, por exemplo, pensamentos involuntários dos quais “mesmo quando estamos em vigília; imagens nos ocorrem, como nos sonhos, sem serem chamadas” e, “como uma lanterna mágica que faz aparecer figuras na muralha à medida que se gira alguma coisa dentro”. (Leibniz)

Além das percepções, este “inconsciente” é composto pelos desejos que nos movem, nos impulsionam sem motivo aparente, “essas pequenas percepções insensíveis produzem em nós essa inquietação […] que constitui muitas vezes o nosso desejo e o nosso prazer.”.

De forma genial, Leibniz ainda demarca essas pequenas percepções, sem apercepção, como constituintes do sujeito, “essas percepções insensíveis […] constituem o próprio indivíduo, que é caracterizado pelos vestígios ou expressões que elas conservam dos estados anteriores deste indivíduo, fazendo a conexão com o seu estado atual.”.

Leibniz pode ser considerado um precursor da psicanálise, suas concepções de pequenas percepções, mesmo sem o conceito inconsciente, é dele que se trata.

A psicanálise dialoga com a filosofia, virar as costas para tal saber é traçar um caminho oposto aquele traçado pelos grandes nomes da psicanálise. Lacan foi leitor de Hegel, Agostinho, Platão, Aristóteles entre outros, por que nós desprezaríamos a filosofia?

 

Samuel Gouvêa Pereira

 

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