Todo ser humano é prematuro e impotente por natureza, precisa ser detalhadamente cuidado, olhado, alimentado, higienizado e, por seus primeiros objetos de amor, na humanidade iniciado. É preciso destacar que, apesar de representante da espécie humana, cada sujeito deve ser humanizado, ou seja, inserido na sociedade humana o que de fato o torna homem. Existem casos, não muito raros, de crianças criadas por animais e que não puderam ser introduzidas na sociedade, como ponto comum, vale citar que, nenhuma delas pode apreender a linguagem humana, quando muito, reproduziam poucas palavras isoladas, sem esse universo simbólico que preexiste a elas, acabaram por se tornarem humanos desumanizados com potencialidades não atualizadas, humanos apenas de aparência.

Na sua precoce relação com o Outro materno, esse pequeno ser é constantemente nomeado, não apenas de João ou Pedro, mas lhe é dito que tem fome, que sorri e chora, que essa é a mamãe e aquele é o papai, esse é o processo mesmo de humanização daquele que se pretende humano, desde o início da vida nos deparamos com essa inserção ao sistema simbólico.

Em nossas relações, culminando na relação analítica, há sempre três, a palavra é o terceiro que faz a ligação. O homem, conforme Flusser, procurava desesperadamente dar sentido aquilo que lhe escapava, ao nonsense, o símbolo surge como uma tentativa de significar o desconhecido, serve de ponte para transpor o abismo entre ele e o mundo que tanto teme, dar sentido é encontrar um certo conforto. Para se entenderem mutuamente, os homens passam a usar códigos e neste sistema se alienam, sempre apelam a linguagem e não mais as coisas, aqui adentram no modo propriamente humano.

A entrada neste sistema simbólico deixa marcas, o nomear materno – “bebê está com fome, vem cá com a mamãe mamar”, diz muito mais do que o saciar da fome, pois, como sabemos, nem só de pão viverá o homem. Desde o momento em que ultrapassamos o pórtico de Babel, somos marcados por esse Outro, marcas e traços que não se podem dizer, é o que está para além do “bebê tem fome”, como por exemplo, tem desejo e gozo. Não deixando de olhar por esse prisma, a palavra diz muito mais do que acredita dizer, sempre se refere ao algo a mais, entenda-se essa afirmação na máxima amplitude que ela comporta.

Em análise, nos deparamos com a importância de se ouvir o que não está sendo dito, com as manifestações do inconsciente, a centralidade da regra fundamental que possibilita a dúvida e a suspensão da lei da não contradição (uma verdade lógica não deve ser tomada como uma verdade ontológica como o fez Descartes), pois, aquilo que se mostra como contradição é a realização do sujeito. Quando a livre associação está em curso, diz Lacan, o sujeito não acredita no seu discurso senão pela metade, isso ocorre por estar sob o fogo cruzado das interpretações que ultrapassam a enunciação e vão de encontro aos conteúdos inconscientes possibilitando a pergunta – qual é o sujeito do discurso?

Samuel Gouvêa Pereira