Na atualidade, muito se fala a respeito da atenção aos sujeitos portadores de necessidades específicas. Aqui levanto o tema em forma de reflexão, do contrário não poderia defender o que digo diante dessa realidade. Ora perpassaremos por questões antropológicas, ora sociais/culturas e não deixaremos de analisar se estamos apenas repetindo figuras de linguagens viciadas e bem distantes de uma análise séria.

Quero iniciar fazendo alusão a uma prática que nos servirá de análogo. Eis um fato curioso, conhecido por alguns e para a maioria dos brasileiros, desconhecido.  Me refiro ao costume mantido por algumas etnias indígenas em nosso país, principalmente em tribos isoladas, como os suruwahas, ianomâmis e kamaiurás. A prática? Infanticídio!

Para eles, eis uma solução, um sacrifício em forma de cuidado para aqueles que por alguma deficiência não poderiam ter uma vida plena na selva.

Sacrificam os bebês que apresentarem algum tipo de deficiência física, por menor que esta seja, ou mental.

Lendo algumas reportagens sobre a prática indígena, quase sempre me deparei com a pergunta: você é contra ou a favor?

Veja como a pergunta já é tendenciosa, porque deveria ter uma opinião contra ou a favor? Não partilho da cultura, não conheço suas crenças e ainda não sou índio. Desta forma, não estou qualificado para julgar, posso refletir.  Parece que nos acostumamos com a “doxa”, opinião, todos estão prontos para escutar os filodoxos – opinadores vulgares profissionais.

A minha posição, como pensador sério, não é de aceitação ou repudia. Mas ao contrário da resposta de uma sociedade dita civilizada e protetora dos direitos humanos, que reconhece tal ato como deplorável, não ofereço uma opinião pronta, me permito apenas pensar a respeito tentando fazer as perguntas certas.

Voltando as tribos indígenas que praticam o infanticídio, o homem civilizado olha para aqueles e diz: isso é um absurdo, desumano!

Como isso ainda é permitido em nosso mundo?

Posso até ouvir a voz de algum intelectual nos moldes brasileiro dizendo: não estamos mais na Idade Média!

Agora, partindo daqui para algum lugar distante, no interior desse Brasil, em alguma tribo isolada, o índio Namurú esboçaria igual espanto e revolta ao saber que o homem branco, ao contrário deles, não sacrifica seus filhos portadores de alguma deficiência, mas o mantém “vivo” em sua tribo sob condições de fato desumanas. Desta forma, seguem “matando-os” um pouquinho a cada dia durante toda a sua vida sustentando o discurso de estar exercendo uma atitude exemplar diante de qualquer época passada.

Namurú exclamaria: Que absurdo! Esses homens brancos são uns bárbaros!

Tão bárbaros que, certa vez conheci a mãe de um jovem autista severo que fora excluído da educação, do convívio social, do direito ao lazer, do direito a saúde, entre outras formas de exclusão. Ela seguiu com um relato de extrema importância para nossa análise: dizia ela que seu filho precisou de atendimento médico por conta de severas dores de estômago e de um dentista por dores também insuportáveis no dente siso. Chegando com seu filho ao gastroenterologista relatou todo o ocorrido e escutou como resposta: Eu não atendo “essas” pessoas; e concluiu com palavras não tão românticas quanto as que reproduzo: Vocês não são “gente” como a gente.

Mãe já sofrida, acostumada com a realidade desse nosso povo respondeu: Ele tem estômago como você!

Ao encontrar o dentista foi recepcionada da mesma forma, com o mesmo “profissionalismo” recebendo toda gentileza oferecida pelo seu primeiro colega médico.

Imagino daqui a expressão confusa de Namurú diante dessa manifestação de grande sapiência.

Não estamos aptos para julgar um índio que sacrifica o próprio filho por ter qualquer tipo de deficiência física, por uma questão cultural/social.  Definitivamente não temos essa autoridade. Não existem direitos humanos que nos coloque em tal posição. Entretanto, podemos julgar as nossas próprias práticas, não só podemos, como devemos analisar e julgar da melhor forma, primeiro baseados em nossos padrões morais e depois legais.

Nós também procuramos cuidar daqueles que te alguma necessidade, mas de fato cuidamos?

A exclusão no Brasil parece seguir duas linhas, é importante pontuar que isto não é um conceito, mas uma observação da vida cotidiana:

Temos uma exclusão primária ou de socialização e outra que chamei de secundária ou social, resultado direto da primeira. Para trabalhar a inclusão é primordial focar a exclusão de socialização.

A exclusão primária, tem sua gênese nas primeiras relações afetivas, ainda no seio da família e círculos próximos. É comum ver casos de pais que não aceitam seus filhos, existe uma negação em relação as diferenças deste sujeito, portadores de alguma deficiência, esses pais queriam “filhos normais”. Vemos ainda relatos de pais que deixam de receber seus amigos em casa e abandonam alguns hábitos com os mesmos por “vergonha”, pois todos vão ver como seu filho é. (Fique claro que não estou me referindo a uma regra).

Assim, a exclusão começa a se estender ao nível de relações mais amplas, desdobramentos originários daqueles primeiros vínculos, exclusão primária.

Exclusão secundária, ou de serviços, grosso modo, é a fumaça que sinaliza o fogo, ou seja, a exclusão do médico, do dentista, da escola, do lazer etc. É a ponta do iceberg tão conhecida e vivida por todos nós.

Meu propósito não é propor a gênese do problema da inclusão/exclusão, longe disso, meu interesse é de estar situado e procurar entender a realidade em que vivo para não partir rumo ao debate com discurso estereotipado.

Temos feito efetivamente tanto em nome da inclusão que a soma do montante é igual a quase nada (quem sabe uma hipérbole). Alguém pode achar exagero, peço que pense por um minuto em um médico que estudou por pelo menos dez anos para exercer sua profissão e que oferece a seu paciente a confortante declaração: Vocês não são gente!

Olhe ainda para o caso do dentista e veremos o mesmo despreparo. Nossa educação, por sua vez, não está apta para receber esses sujeitos pelo simples e indiscutível fato de que os profissionais envolvidos não têm preparo, capacitação e infraestrutura necessárias.

Estamos criando leis para o amparo desse público cada vez mais crescente, o que é um grande ganho. No entanto, leis para uma sociedade completamente despreparada e alheia, direitos para uns representa mais deveres para outros. Leis para pesar toda a nossa realidade política burocrática?

Precisamos mesmo é capacitar e conscientizar. Outra vez estou longe de oferecer uma suposta solução para o problema, acontece que, está algo explícito, a intervenção tem de ir ao encontro das famílias e pequenos grupos que trabalham e convivem com esses sujeitos, as soluções devem vir de baixo e não de cima.

Esclarecimento dos pais sobre os cuidados desde a primeira infância, conscientizá-los da necessidade de um reconhecimento precoce das demandas deste sujeito, buscar quebrar, a partir daí, todo pré-conceito que gire entorno desta realidade, trabalhar a aceitação, auxiliar na educação, produzir adaptações necessárias em casa, na escola e lugares de frequência.

Seguindo de forma lógica, deveríamos capacitar os profissionais da educação e outros que lidam diretamente com esse público. Não me refiro a uma capacitação universitária somente, pois essa viria de cima e se trata de burocracia, seus interesses não vão de encontro ao efetivo, me refiro a uma educação e capacitação mais informal. Pessoas que buscam aprender pelos vínculos relacionais e assim capacitar outras e outras. Pais que tem a maior parte da vivência e terapeutas com prática devem participar do ensino nas escolas e grupos menores. Enfim, com mudanças que comece por abolir todo discurso repetido e estereotipado, é possível. Afinal de contas estamos falando de gente que tem direitos como a gente, que tem suas particularidades, subjetividade e visão de mundo diferente, como nós?

Enquanto isso, o espanto de Namurú está apenas começando!

 

Samuel Gouvêa Pereira

 

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