É natural, assim espero, que a questão teórico-técnica da interpretação x neutralidade surja constantemente em forma de reflexão aos praticantes da psicanálise. Muitas vezes, vocês que o digam, existe uma concentração do analista que se dirige a compreensão/interpretação do discurso do paciente. Está atenção, da forma que a trato, contraria a indicação de Bion quanto à mente do analista – não esteja saturada por memória, desejo e ânsia de compreensão imediata – esta indicação complementa a regra de atenção flutuante de Freud.

Sabemos que a atividade interpretativa faz parte da prática psicanalítica, devemos ter uma boa parcela de cautela a esse respeito e, acima de tudo, aproximar a interpretação do que Freud chamou de neutralidade. Mas, do que se trata esta neutralidade e qual a sua relação com a atividade interpretativa?

Se este problema não havia sido colocado pelo analista antes, é fundamental que agora o seja.

Lacan, no Seminário, Livro I, vai trazer uma interpretação de Annie Reich, que ele chamou de ego para ego ou de igual para igual, que nos servirá de exemplo.

A situação se passa no momento em que o analisando, não ignorante à psicanálise, acaba de sair do decesso da sua amada mãe. Nem por isto deixando de cumprir com seus compromissos, vai até uma emissora de rádio tratar de um assunto que interessa a sua analista, Annie Reich.

Na próxima sessão, o analisando chega a um estado de estupor, como diz Lacan, vizinha a confusão. Em seguida, a analista surge com uma interpretação-choque: “está nesse estado porque pensa que eu lhe quero muito mal pelo sucesso que teve no rádio, o outro dia, sobre o assunto que, como sabe, me interessa essencialmente.”. Os desdobramentos desta interpretação não nos interessa no momento e sim sua forma.

O problema deve ser colocado exatamente aqui, onde Lacan trata da interpretação de ego para ego.

Retomando a regra da neutralidade, ela nos aparece na famosa metáfora do espelho, Freud diz que – “o psicanalista deve ser opaco aos seus pacientes e, como um espelho, não lhe mostrar nada, exceto o que lhe for mostrado.”.

Sabemos que dificilmente, entendendo a amplitude do termo usado, a interpretação de um analista coincidirá com a interpretação de outro analista. Um sonho, por exemplo, têm muitas facetas, condensações e tanto conteúdo quanto interpretações, não é disso que trato.

Refiro-me ao fato de o ego do analista estar, muitas vezes, presente no momento da interpretação e servir como métrica interpretativa atribuindo algum sentido que ali não está. Sentido este que, carregado de pré-conceitos, crenças, certezas etc, vai dar o escopo daquela fala a seu modo, do analista.

Atenção ao que digo e ao que não digo, não pretendo alegar que isso ocorra em todos os casos ou na grande maioria, apenas julgo ser algo muito propenso a acontecer.

E como ficam as interpretações diante deste erro?

As interpretações devem ser feitas na superfície do espelho sem que o sujeito dito analista apareça, de forma neutra. Nas belas palavras de Stendhal em O Vermelho e o Negro – “um romance é um espelho que é levado por uma grande estrada. Umas vezes ele reflete para os nossos olhos o azul dos céus, e outras a lama da estrada. E ao homem que carrega o espelho nas costas vós acusareis de imoral! O espelho reflete a lama e vós acusais o espelho! Acusai antes a estrada em que está o lodaçal, e mais ainda o inspetor das estradas que deixa a água estagnar-se e formar-se o charco.”.

O analista, na posição de espelho, não deve macular aquilo que é refletido, mas, tão somente, devolver a “imagem” que o paciente não percebe, aquilo que lhe escapa, seja uma mosca ou um elefante que passa diante de olhos cegos.

O sentido diz respeito à verdade do sujeito e somente o analisando deve atribui-lo ao ver a imagem refletida no espelho, eis a dinâmica da interpretação.

Ao analista cabe ser um espelho límpido, sem manchas, desgastes e fissuras, ou seja, sem permitir que seu ego entre em jogo com suas verdades, pré-conceitos e valores.

Interpretar tem como sentido original – dar a conhecer aquilo que está dentro, dentro de quem, do analista ou do analisando?

Lacan finaliza o caso Annie Reich pontuando – “nunca se disse que o analista não deve ter sentimentos em relação ao seu paciente. Mas deve saber não apenas não ceder a eles, coloca-los no seu devido lugar, mas servir-se deles adequadamente na sua técnica.”.

Enquanto eu finalizo dizendo – o que você fará destes sentimentos é um problema unicamente seu!

Samuel Gouvêa Pereira