Em seu livro Introdução à Filosofia, Julian Marias, difere seu título das outras introduções. Para o filósofo, as três principais formas de que se tem escrito sobre o tema, tratam primeiro, de uma introdução sistemática onde há uma exposição dos problemas filosóficos e suas possíveis soluções. Segundo, uma introdução histórica e evolutiva da filosofia e terceiro, a escolha de um problema ou grupos de problemas em que se pretende refletir de forma detalhada.

Sua introdução versa por uma unidade que o autor chamou de pessoal, uma biografia, diz ainda tratar de uma forma de viver dentro dela. Na leitura deste livro indispensável, refleti sobre os possíveis livros de “introdução à psicanálise” e não pude deixar de concluir que o melhor “texto” escrito sobre esta introdução, não pode ser outro, senão a análise pessoal, já que as letras, sílabas, frases e sentidos, essencialmente, estão escritos em nós. Como Marias, chamo de uma forma de viver dentro dela.

No Seminário, Livro I, Jacques Lacan, destaca que Freud ousou dar atenção às antinomias da sua infância, seus sonhos e perturbações. E por isto, como cada um de nós, está no centro de todas as suas contingências. Não é possível, de forma alguma, uma introdução à Psicanálise fora do setting analítico. Não importa quantos livros se leia, quantos anos dedicados aos estudos, sem deitar-se no divã, não se foi efetivamente introduzido na Psicanálise. É inquestionável que o analista se faz em análise, é preciso ter coragem e ousadia para encarar nossas próprias mazelas.

Não poderia expressar esta realidade, de forma análoga, melhor do que o fez Platão na sua Carta VII – “sobre essas coisas (as maiores) não existe um texto por mim escrito nem jamais existirá. De nenhuma maneira o conhecimento dessas coisas é comunicável como os outros conhecimentos, mas, depois de muitas discussões sobre elas e depois de uma comunidade de vida, subitamente, como luz que se acende de uma faísca, ela nasce na alma e alimenta-se de si mesmo.”.

Não existem livros escritos e jamais existirá que substitua a experiência de análise, é no processo analítico que se pode ver como toda essa coisa dita psicanálise acontece e, acontece em nós.

Faça análise!

 

Samuel Gouvêa Pereira