Antes de ser a morte da coisa, a palavra é seu nascimento enquanto simbólico. Nascimento, no sentido de criação, não se trata de um criador onipotente que, com o poder da sua palavra, cria tudo quanto existe do nada.

A morte da coisa trata de uma simbolização/significação, já não preciso apontar para uma maçã ou pegá-la para dizer que quero essa fruta e não uma banana ou um punhado de feijão. Não precisamos mais nos referir diretamente as coisas, mas, ao contrário, usamos signos para representá-las.

Como bem disse Vilén Flusser, filósofo tcheco naturalizado brasileiro, o homem precisa de um entendimento mútuo por intermédio dos códigos uma vez que, perdeu o contato direto com as coisas. É assim que o homem se aliena e vê-se obrigado a criar símbolos e, caso queira ultrapassar o abismo que existe entre ele e o mundo, ordená-los em códigos.

Desta forma, não seria a palavra o nascimento da coisa enquanto coisa simbólica?

Digamos que para morrer em paz, a coisa precisa dar à luz a um herdeiro. Morre a coisa e nasce a palavra, o nascimento de uma árvore implica a morte de uma semente.

Fique claro que tratamos de um universo simbólico, as coisas em si (referentes) continuam vivinhas da Silva enquanto usamos palavras como representantes daquelas.

Não podemos deixar de pontuar que esta passagem, da coisa a palavra, é extremamente problemática, pois, a fala nos sanciona. Em primeiro lugar, nos deparamos com o uso próprio e não genérico, está palavra e não aquela outra. Buscar pelas palavras certas a exemplo de Flaubert que era capaz de ficar dias e até mesmo meses sem escrever buscando por termos próprios, como fez em Madame Bovary. Em segundo lugar, temos a limitação intrínseca da palavra em não dar conta, ela não pode abarcar o todo ou a exatidão. Eu te amo! Como vemos, jamais poderei precisar de forma suficiente aquilo que sinto e dizer exatamente o que pretendo ou pretendia dizer.

É Lacan quem vai dizer sempre “a verdade: não toda, porque dizê-la toda não se consegue. Dizê-la é impossível, materialmente: faltam palavras. É por esse impossível inclusive, que a verdade tem a ver com o real”.

Morrer e nascer são duas faces da mesma moeda. Em análise, devemos nos encontrar com coisas que morreram e foram devidamente enterradas no recalque, também seus fantasmas. Destas mortes outras coisas nasceram e nós necessitamos continuar o trabalho de transpor a vida em morte e a morte em vida.

 

Samuel Gouvêa Pereira