Fustel em A Cidade Antiga, argumentando em favor de uma reconstituição da cultural das civilizações que deram origem aos gregos e romanos, contra a falta de documentos, apela a continuidade do passado no íntimo dos sujeitos; o passado não morre, passível de esquecimento, continua em algum lugar de nosso íntimo.

É comum entender o passado como aquilo que pode ser invocado pela memória e o futuro como expectativas que construímos. Santo Agostinho, e  nós com ele, entende que o tempo cronológico é dividido em três momentos – o passado diz respeito aos acontecimentos que se foram, já não existem como acontecimentos atuais e, neste sentido, deixou de existir. O futuro é um conjunto de possibilidades que ainda não se atualizaram, mesmo que de forma diferente daquilo que se espera, deve atualizar-se e vir a existir. O presente está entre o passado e o futuro, como um pêndulo, em dado momento o futuro que ainda não existe se atualiza, em seguida deixa de existir, em um fluxo contínuo cai no passado. Nas suas Confissões, o filósofo não deixará de fazer suas considerações sobre a memória que é o sustentáculo deste passado que, como acontecimento atual, não existe mais, entretanto persiste como lembranças.

Feitas algumas considerações sobre o tempo, entendendo que o passado são vivências memoráveis, ele passa a ser material de narrativas, é historicizado e daí surgem uma série de contos que supostamente devem dizer quem somos, pense, por exemplo, em um momento da sua infância e veja o quanto de relatos há.

Jacques Lacan, no Seminário I, entende a história como passado na medida em que é historicizado no presente e só pode ser pelo fato de ter sido vivido no passado, entretanto o passado não deve se limitar ao histórico.

Acontece que o passado historicizado muitas vezes não parte das nossas próprias experiências que podem ser evocadas pela memória, mas se entremeia aos relatos de outros que acabamos tomando como nossa própria verdade, claro que todos esses discursos nos integram.

Seguindo um pouco adiante, evoco uma imagem – em uma gruta/caverna, como podemos saber que o primeiro som/grito não é idêntico aos outros que o seguem em eco, qual as semelhanças e relações entre eles?

O primeiro som tem origem no ato de gritar, os demais, apesar do mesmo som, são repetições e repetições que segue em cadeia imitando o primeiro. O passado vai muito além daquilo que pode ser narrado, algo segue ecoando.

Se o passado ultrapassa a série dos enunciados, me coloco no fio da meada, existe um ato inicial, um grito, entendamos grito como uma certa vivência, que vai se atualizando repetitivamente e este é o nosso ponto.

Freud em recordar, repetir e elaborar, toca exatamente neste ponto, diz que o paciente não se recorda o que esqueceu e reprimiu, mas, vejam bem, expressa-o pela atuação, a lembrança se reproduz como ação; o sujeito repete sem saber o que está repetindo, o repetir é uma forma de recordar, como o eco, repete-se recordando o som inicial.

No setting analítico a transferência é uma atualização fragmentada de uma experiência e de uma pessoa, portanto, uma recordação/repetição que se transfere de lá para cá.

Seguindo o texto referido, Freud explica que, “enquanto o paciente se acha em tratamento, não pode fugir a esta compulsão à repetição; e, no final, compreendemos que esta é a sua maneira de recordar.”

O repetir tem, sem sombra de dúvidas, uma causa. Repetir é efeito de resistir, quanto maior a resistência, mas o paciente atua o passado que só pode ser manifesto desta maneira.

Ainda evocando a imagem do eco, sabendo que o mesmo vai perdendo sua intensidade no decorrer do tempo, este enfraquecimento pode ilustrar a diminuição da resistência no caso do repetir como lembrança do passado, pouco à pouco as resistências devem ser ultrapassadas e o esquecido, lembrado.

Tomando como objeto de análise esse material que ainda não pode ser recordado, mas como eco repete e atualiza-se, todo o passado histórico do sujeito é apenas uma parte e, de fato, o sujeito tem muito mais a dizer do que aquilo que diz, um dizer que segue ecoando no setting analítico.

Samuel Gouvêa Pereira