No início dos meus estudos, em psicanálise, li em Zimerman uma ilustração que muito elucidou a compreensão do funcionamento do recalcamento, até hoje faço uso do exemplo com algumas complementações, bem como, pequenas modificações.

Ainda não encontrei melhor forma de lançar luz sobre o mecanismo do recalque, irei descrever o processo, usando o exemplo, em forma de um pequeno conto.

Certa manhã de sábado, ele acordou por volta das 7h30. Estava de folga, pretendia dormir até mais tarde para descansar da semana de muito trabalho, acontece que o dia já estava quente e bem claro, era verão, isto acabou com sua manhã de preguiça.

Tomou seu café amargo, como de costume, leu seus emails e algumas notícias e resolveu aproveitar a piscina.

Mergulhou, nadou de uma ponta à outra, se refrescou e apanhou uma grande bola que estava ali, com ela começou a brincar.

Em uma de suas brincadeiras, com água até o peito, estendeu seus braços, segurando a bola e a afundou. Segurou-a na direção da barriga ainda com os braços estendidos. O jogo tratava de sustentá-la em força negativa, pressão, o quanto pudesse, passaram-se cinco, dez, quinze minutos até que seus ombros começaram a doer, aguentou ainda mais um pouco, não aguentando mais, soltou-a. A bola aflorou a superfície com muita força respingando água que acabou por refrescar sua cabeça.

O exemplo de Zimerman, fala da água, da bola e da dor, explico:

É bem conhecida a ilustração do iceberg que retrata a primeira tópica. O que está acima da água é consciente, o que está na flor d’água e pouco abaixo é o pré-consciente e o que está debaixo d’água, mais profundo, é o inconsciente.

O exemplo da piscina, segue a mesma lógica. A bola nada mais é que, um material que deve ser mantido no inconsciente pela força da repressão exercida pelo ego.

Este material reprimido continua investido de uma catexia, uma energia para mantê-lo recalcado e tenta a cada momento romper a barra da repressão e emergir na superfície da consciência, mas o ego continua exercendo sua contracatexia, após algum período, este dispêndio de energia para manter o recalcado fará surgir uma dor nos ombros,  está dor não poderia ser outra coisa senão o sintoma neurótico.

Quando a bola, material recalcado, é liberado, existe o alívio do sintoma.

A psicanálise advoga que, tratando da dor nos ombros e não da bola submersa, este sintoma pode ser deslocado. Ora, se o sujeito da nossa história mudasse a posição em que sustentava sua bola, a dor deslocaria para outro ponto.

Além do material reprimido, todos os processos de atividades do ego, nos mecanismos de defesa, também o são.

O sujeito não se atenta ao esquecer, ou o que esqueceu, ele apenas esquece.

Anna Freud, em seu livro O Ego e os Mecanismos de Defesa, fez uma referência a alguns autores que entendiam a repressão como mecanismo base e que todos os outros mecanismos de defesa ou o reforçam ou atuam sobre o malogro da repressão. Reflexão muitíssimo interessante uma vez que, de alguma forma, os mecanismos vão sempre apresentar a face de algum material reprimido, seja na formação reativa, identificação, negação, sublimação, etc.

E por fim, é Lacan quem diz – “o sintoma é o significante de um significado recalcado.”.

 

Samuel Gouvêa Pereira

 

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