“A música está formada por elementos de notas-intervalos-notas, sendo que a ausência de som, isto é, a presença de intervalo pode representar mais vigor e expressividade que a nota musical por si só.” – Bion.

Se toda nota musical fosse tocada de uma forma ininterrupta, em determinada harmonia, certamente tal música seria um caos. Música é composta de sons, silêncio, vozes, sensações, vibrações, emoções, lembranças etc.

Existe uma ânsia por interpretar, uma ânsia por respostas imediatas como se o silêncio não fosse em si, muitas vezes, o elemento que antecede uma resposta e uma interpretação, como se não fosse um dizer. Em um processo analítico, uma música se instaura, na verdade, a análise é uma melodia, entre outras coisas, psicanálise é arte. Melodia essa, ora dramática, ora romântica, ora inspiradora, ora apaixonada, ora reflexiva, ora silêncio.

Tomando este último, no processo analítico é preciso os intervalos musicais para que essa música seja audível, compondo a harmonia do sujeito, ou melhor, a harmonia do par analítico. No enquadre analítico, analista e analisando não só caminham juntos de mãos dadas, mas dançam. A melodia é do analisando, a dança é do par, mas quem “conduz” é o analista. A análise vai além do caminhar, é preciso dançar a música do sujeito.

Podemos ainda, romancear mais um pouco o processo analítico, imaginar cada nota musical como sendo um elemento da análise, como por exemplo: dó – livre associação, fá – sonhos, sol – transferência, mi – ato falho, ré – actings, lá… si… e assim por diante, sem se esquecer de que temos tons menores, sustenidos, bemóis, sextavados…

Seguindo nosso romance, o maestro dessa grande orquestra, sem dúvida alguma é, ele, o inconsciente, onde “sob sua regência” todos os instrumentos e notas são conduzidos, formando toda a beleza.

Todo silêncio precede e separa cada nota, é nesse momento analítico em que essa grande “angustia” invade não só o sujeito analisando, mas todo o setting podendo preceder novas significações, novos insights, o silêncio compõe a música.

É preciso um ouvido bem treinado, para além do aparelho fisiológico, assim, o ponto mais sensível dessa escuta analítica deve ser a atenção flutuante (por parte do analista) e a associação livre (por parte do analisando), naquele exato momento em que a comunicação entre inconscientes é possível.

Entendendo a sensibilidade da psicanálise, é possível o analista não ser amante da música?

Além de amante, este deve ser eclético, vasto, imenso, dado que, a subjetividade de cada sujeito, seu maestro interno, deve reger uma infinidade de estilos musicais. Pensando a psicanálise como uma linda melodia, vale citar o verso da Epopéia dos Nibelungos, o que descreve e resume de forma clara e objetiva o que tento dizer: “Quando soam as cordas do seu instrumento, doces e suaves, então dissolvem-se as dores de quem sofre”.

E quanto ao silêncio?

Samuel Gouvêa Pereira

 

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