Ora, parece óbvio para aquele que não está familiarizado com a psicanálise, quando o paciente procura um analista e inicia sua primeira sessão. Acontece que, a análise não começa neste instante, o fato do sujeito estar frequentando um setting analítico não o coloca de imediato na posição de “analisando”.

 Para melhor ilustrar o que pretendo dizer, farei uso de dois conceitos, em forma de exemplo, aristotélicos, potência e ato. Limito-me a estes não vendo necessidade de tratar do ato primeiro e ato segundo.

 Aristóteles nos diz que, toda mulher é mãe em potência, mas só o é, em ato, quando parir um bebê.

Precisando e ampliando ainda mais, vou até nosso Mario Ferreira dos Santos que, partindo da potência e ato, nos fala de virtualidade e atualidade ou virtualização e atualização. Algo virtual ou virtualização é aquilo que pode vir a ser em um dado momento. Atual ou atualização, trata daquilo que é no momento, o que poderia ter-se tornado e de fato tornou-se aqui e agora.

 Os conceitos, tanto de Aristóteles quanto de Mario Ferreira, comportam aprofundamento, mas para expor o tema proposto, o que foi colocado nos basta.

 De forma didática, podemos colocar o início da análise, quando o sujeito adentra o setting, como sendo um início “virtual” e, quando se entra em análise, seu início efetivo, passamos ao “atual”. Sublinho a passagem de algo virtual que se atualiza, se preferirem, passagem da potência ao ato.

 Como vimos, todo início de análise, usando os termos aristotélicos, é análise em potência. De fato passa a ser análise em ato, no momento em que se estabelece algo que deve proporcionar esta passagem – a transferência.

 Na transferência o desejo do sujeito é atualizado na pessoa do analista que lhe serve de objeto. Em seu texto Fragmento da Análise de um caso de Histeria (caso Dora), Freud vai conceituar a übertragund como sendo novas edições de fantasias e impulsos, ambos se tornam conscientes no decorrer da análise, porém a übertragund tem uma particularidade, figuras anteriores são substituídas pela pessoa do analista. Estas atualizações são renovadas e já não pertencem ao passado, mas ao momento presente, uma vez que, decaem sobre a pessoa do analista.

 Lacan, trata da transferência com toda a densidade que lhe é característica. No Seminário – Livro VIII, nos encaminha até o Banquete de Platão para refletir esse movimento. Alcebíades acredita que Sócrates detenha algo que possa dizer sobre seu desejo, eis o algama que Alcebíades quer para si, Sócrates nada sabe, exceto, as coisas que dizem respeito a Eros. O pivô desta transferência é Sócrates, bem observado que na posição de Sujeito Suposto Saber.

 De forma análoga, vemos o mesmo acontecer na situação analítica. O sujeito crê que o analista possua algo, algo que possa dizer sobre si. Através deste suposto saber que o analista “possui” a transferência é viabilizada. Importante pontuar que, como Sócrates, o analista nada sabe. O que sabe diz respeito ao desejo, diz respeito ao amor (o desejo é o desejo do Outro).

 Aqui se estabelece a condição sine qua non da análise, sem transferência não há análise. Breuer ao se deparar com a potente transferência no caso Anna O., acaba por ter uma “saída bem burguesa”, como denomina Lacan, ao passo que Freud se faz senhor deste temível deus. Como Sócrates, escolhe servi-lo para dele servir-se, servir-se de Eros. Desta forma acaba por descobrir a condição essencial da análise, sem a qual a mesma não se instaura. Esta é a condição de fertilização que coloca a mulher de Aristóteles em um processo gerador de vida, processo que a leva da potência ao ato, enfim, mãe.

Enfim em análise!

Samuel Gouvêa Pereira