No setting terapêutico, é bem conhecida a regra de neutralidade, não julgar por mais escabroso que seja o conteúdo ali manifestado. Tarefa difícil uma vez que todos têm substratos morais, éticos, religiosos, culturas e ideais.

Está regra deve ser atendida de forma atenta e cuidadosa, embora, alguns pós-freudiano acreditavam, entre eles, Ferenczi e Winnicott, que o apagamento do analista não constituía um processo terapêutico unânime.

Vale voltar ao ponto fundador de “todo” o conhecimento e, tomar emprestado de Aristóteles o conceito de potência e ato. Antes de tudo, é necessário entender que todos os membros de determinada espécie estão suscetíveis às mesmas potencialidades e atos inerentes a esta espécie, não se deve esperar do homem que aja como um cachorro, mesmo que o faça muitas vezes.

Na sua matafísica, Aristóteles, descreve a potência e o ato da seguinte forma – “Ato é, portanto, o fato de uma coisa existir em realidade, e não do modo como dizemos que existe em potência, quando dizemos, por exemplo, que Hermes (estátua) está em potência na madeira, ou a semi-reta na reta inteira porque poderia ser tirada dela; ou quando chamamos sábio em potência aquele que não especula, mesmo que tenha a capacidade de especular, pois bem: outra maneira de existir é a existência em ato.”. Por exemplo, toda mulher é mãe em potência, mas algumas são mães em ato primeiro na gravidez, e ato segundo após o nascimento ou concepção do bebê (de forma diferente), em outras palavras, o que é virtual é suscetível de acontecimento, é potência, pode vir a acontecer, o atual é o que deixou de ser virtual/potência e acontece como ato.

A partir de então, fica evidente que qualquer espanto diante de determinados conteúdos apresentados por outro ser humano é puro desconhecimento das potencialidades da espécie, uma vez que, toda atualidade é antes virtualidade do ser humano.

Quem nunca se surpreendeu diante da tomada de uma atitude inesperada?

Como seres humanos estamos sujeitos às benesses mais louváveis e as piores atrocidades. Somos seres capazes de fazer morada tanto no panteão, quanto no pandemônio.

Tudo que é possível de ser realizado por um semelhante é potencial em nós. Sabendo que somos fracos, fortes, bons e maus, como todos os outros, sabendo que temos as mesmas potências, devemos deixar de julgar, pois, antes do ato, existe a potência que possibilita aquele, e toda potencialidade habita-nos.

Identificado este ponto passa-se a empatia menos sujeita a artificialidade, somos outro “igual”, agora, vale buscar em nós, como terapeutas, sentimentos análogos para que, além da identificação, estejamos mais próximo do sentir.

Sentindo analogamente nos colocamos no centro da transferência em posição privilegiada, podendo agir de forma verdadeira e humana, estando ali – não se ouve apenas, mas compreende-se, identifica-se e sente-se as “mesmas” vivências de forma proximal. Este é o processo terapêutico por excelência. Antes de uma comunicação entre inconscientes, temos uma comunicação entre dois seres humanos.

 

Samuel Gouvêa Pereira

 

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