O termo signo linguístico, tal como conceituado, não retrata exatamente as formas de linguagem que me proponho a tratar neste texto, por outro lado, deve ser bem acertado exatamente por haverem tantos signos e formas de fala que são dotados de significantes e significados além do campo da linguagem oral.

Iniciando com a comunicação arcaica do bebê, em Melanie Klein, entendemos que o brincar é um modo de linguagem onde a criança expressa suas fantasias, defesas, angústias, desejos e experiências reais através de símbolos. Esta linguagem se aproxima da linguagem onírica e pode ser comparada com a linguagem dos sonhos. Klein, identificou nessa expressão simbólica os conflitos, as ansiedades e fantasias, através do brincar.

Ainda relacionando as experiências arcaicas do bebê, podemos trazer a reflexão, a relação de amor e ódio com os seios (bom e mau). Partindo destes dois sentimentos básicos, primitivos do bebê, começa sua relação com a mãe e a partir de então a formação de significações. Assim, esta relação pode se estruturar como uma linguagem bem primitiva, uma vez que, o bebê projeta, cindi, introjeta, nega, idealiza, sempre com base nas experiências base.

Aqui, já ampliamos a concepção de “signo linguístico”, no que diz respeito ao sentido, pois é dotado de significante e significado, para além da fala.

Bion associa o “terror sem nome” como uma falha da função alfa, uma incapacidade da mãe em ser continente. Para que esse terror sem nome seja amenizado na vida adulta é de estrema importância a posição de continente dessa mãe para com seu bebê, ou seja, é preciso que essa mãe entenda o sofrimento do bebê e que explique a ele o que está acontecendo, nomeie. Essa mãe precisa, com carinho e afeto, criar um vínculo e simbolizar essa dor, esse sofrimento ao seu bebê, dando a ele palavras para formar uma expressão na realidade. Esse elemento foi chamado por Bion de elemento alfa, derivado de alfabetização.

Porém, quando essa mãe não fornece essa necessária significação de experiência para o bebê, os elementos a serem formados são chamados por Bion de betas, esses estariam mais com o pé na realidade ao invés da fantasia, realidade essa que pode ser muitas vezes dura. Bion dizia que os elementos alfa, devem criar uma barreira de proteção que separaria o mundo externo (realidade) e o interno (fantasia). Havendo a predominância de muitos elementos betas, essa barreira é toda perfurada e os dois elementos se confundem.

O sujeito já adulto passa a confundir realidade e fantasia, as coisas se confundem, podendo ainda, se agravar ao ponto de uma psicose, perda total da noção da realidade, vivendo em um mundo próprio.

Vemos aqui, quão importantes são todos esses signos linguísticos arcaicos para a formação do sujeito.

Mais tarde, Lacan nos legou um algoritmo, na esteira de Freud, que nos mostra uma forma bem interessante de linguagem:

“O sintoma é o significante de um significado recalcado.”.

O sintoma se estrutura como uma linguagem, linguagem essa do inconsciente, segundo Freud, “a verdadeira diferença entre uma ideia inconsciente e uma ideia pré-consciente (um pensamento) consiste em que o material da primeira permanece oculto, ao passo que a segunda se mostra envolta com representações verbais… Estas representações verbais são restos mnêmicos.”.

De forma brilhante, Freud demonstra de forma clara que o inconsciente se estrutura como uma linguagem. Representações verbais são reportadas da função que a linguagem tem com sua relação na estruturação do inconsciente.

Lacan relacionou ainda os dois mecanismos primários do inconsciente a duas figuras de linguagem. Atribuiu à condensação a equivalência da metáfora e, ao deslocamento, a metonímia.

De forma simples, podemos entender que a condensação representa por si só várias cadeias associativas, em cuja interseção se encontra. Para Laplancehe e Pontalis, deslocamento é o “fato de a acentuação, o interesse, a intensidade de uma representação ser susceptível de se soltar dela para passar a outras representações originariamente pouco intensas, ligadas à primeira por uma cadeia associativa”.

Metáfora é uma figura de linguagem em que um termo é substituído por outro a partir de uma relação de semelhança entre eles – a lua é uma bola de queijo. Ainda em Laplancehe e Pontalis, “uma representação única representa por si só várias cadeias associativas, em cuja interseção se encontra.”.

De acordo com Lacan “…é por intermédio da metáfora, pelo jogo da substituição de um significante por outro num lugar determinado, que se cria a possibilidade não apenas de desenvolvimento do significante, mas também de surgimento de sentidos novos, que vêm contribuir para aprimorar, complicar, aprofundar, dar sentido de profundidade aquilo que, no real, não passa de pura opacidade”. Relacionando os dois processos básicos do inconsciente as figuras de linguagem, Lacan, estreita ainda mais os laços de sua afirmativa – “o inconsciente é estruturado como uma linguagem.”.

Existem várias formas de linguagem das quais o analista deve estar pronto a “escutar”, sabemos, por exemplo, que parte da escuta analítica é escutar o que não foi “dito”.

 

Samuel Gouvêa Pereirar

 

PARTICIPE DA JORNADA