“Ponham algo de si na psicanálise, não se identifiquem comigo […]. Tenham seu estilo próprio, pois eu tenho o meu.”. -Jacques Lacan.

Lacan, em sua busca de um retorno a Freud e, diga-se de passagem, uma retomada à psicanálise, cria a sua própria psicanálise.

Podemos dizer que, Lacan ao buscar sair da “deturpação” do real sentido em que a psicanálise vinha sofrendo, por consequência do crescimento da Psicologia do Ego nos EUA (segundo o próprio), tenha “inventado” a sua psicanálise.

Polêmico, rebelde aos modelos tradicionalistas praticados pela IPA, Lacan é, como ele mesmo diz, excomungado. Ao usar o termo excomunhão, que é o ato de ser colocado fora da comunhão, ex-participante desta e, consequentemente, excluído das práticas sacramentais, Lacan se aproxima do texto freudiano – O futuro de uma Ilusão, em que Freud procura proteger a psicanálise dos “clérigos” conforme o trecho da carta de Freud a Pfister:

“Não sei se o senhor adivinhou a ligação secreta entre A Questão da Análise Leiga e O Futuro de uma Ilusão. Na primeira, quero proteger a psicanálise dos médicos; na segunda, dos sacerdotes. Quero entregá-la a uma categoria de curas de alma seculares, que não necessitam ser médicos e não podem ser sacerdotes.”

Voltando a sua releitura, o que Lacan acaba por fazer é colocar algo de si, é ter o seu próprio estilo, estilo esse que parte de uma base formal, a psicanálise dita freudiana. Forma evidenciada na declaração – “se vocês quiserem podem ser lacanianos, eu de minha parte sou freudiano.”.

Independente do que se diga em relação a declarações de pertencimento à determinadas escolas, kleinianos, winnicottianos, lacanianos, Lacan dizia – sou freudiano, sou psicanalista. Lacan não estaria usando do mesmo sentido escolar?
Jamais! Queria dizer mesmo – se aquele que se diz psicanalista não for freudiano, o que mais será?

Como dizia Henry Ford – “O cliente pode ter o carro da cor que quiser, contanto que seja preto”.

Em meio as deturpações que a psicanálise vem sofrendo com eventuais envolvimentos com as ciências duras, por exemplo, temos visto uma grande torre de Babel, onde muitas línguas são faladas e pouco se entende, o apelo de Lacan para nosso tempo, talvez fosse – tenham seu próprio estilo, ponham um pouco de si na psicanálise, mas não se esqueçam, acima de tudo, de serem freudianos.

 

Samuel Gouvêa Pereira

 

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