Lacan em seu Seminário Livro XI – Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise, diz: “Platão não pôde fazer mais que nos indicar, da maneira mais precisa, o lugar da transferência”. Ademais, cita a passagem do Banquete, onde é dito que Sócrates “jamais pretendeu nada saber, senão o que diz respeito a Eros, quer dizer, ao desejo”.

Ainda em Lacan, o pivô da transferência não deve ser outro senão o Sujeito Suposto Saber mas, do que se trata a função de Sujeito Suposto Saber?

Quando alguém procura por um psicanalista, supõe que este possua um saber, não qualquer saber, mas um saber de sentido, um saber sobre o seu sintoma, sobre si.

A função SSS está implícita no próprio discurso analítico. Ao adentrar em um setting terapêutico, o analisando escuta uma série de prescrições, entre outras regras, deve verbalizar tudo quanto lhe vier à mente, tudo deve ser dito livremente, sem julgamento de valor moral ou ético, sem atribuição de relevância entre outros, somente diga e quando pensar em não dizer, por qualquer motivo, diga!

Ora, a regra fundamental ou regra de livre associação, coloca o analista em uma posição passiva, de escuta. No entanto, é o analista quem pontua e interpreta para o analisando, quem dá “sentido” para o que lhe “escapa” do inconsciente.

Lacan, ainda no seminário XI, não poderia ilustrar melhor a posição de Suposto Saber do que o fez. Segue argumentando que nenhum psicanalista pode representar um saber absoluto. Mas, no que diz respeito ao inconsciente, podemos legitimar como sujeito que poderia supor saber, Freud. Além de suposto saber, ele de fato sabia, tanto sabia que nos legou as vias traçadas ao inconsciente. Desta forma, fica colocado o melhor dos exemplos da função Sujeito Suposto Saber, afinal de contas, todos sabem que – Freud Explica!

Daqui em diante, devemos pontuar o SSS como pivô da transferência. Para Lacan, o desejo é o desejo do Outro. O discurso do Outro compõe a mítica do inconsciente, demarca-o desde o seu nascimento, é um sistema parental que lhe serve como determinante.

O que este Outro quer de mim, o que ele deseja de mim, como consequência desta pergunta, desejo isto que me faz ser desejado, o meu desejo é o desejo do Outro.

Em um primeiro momento, no desenvolvimento do conceito de transferência, Freud demarca a mesma como sendo a forma que o sujeito transfere suas representações de vivências passadas para o momento presente. A transferência estava mais pautada em como se vivia as novas relações tendo como escopo as antigas.

Na clínica, Freud percebe que este conceito não dava conta, a transferência não só transferia a forma de dada vivência, mas transferia para a pessoa do analista suas relações objetais, o analista passava a suportar estas representações ocupando o lugar de objeto. Transferir vem do latim trans+ferre, “portar, levar de um lugar para outro”, ou seja, não só levar de um lugar para outro um “vivência”, mas a representação de uma pessoa.

Desta forma, nossas primeiras relações no seio familiar, foram construídas sob a influência daqueles que sabiam quem somos, fomos nomeados, falados, desejados, em suma, ali estava um suposto saber a respeito de nós mesmos, “é de ver funcionar toda uma cadeia no nível do desejo do Outro que o desejo do sujeito se constitui”. (Lacan).

Ao transferir tais vivências para o momento atual, para a pessoa do analista, ali no presente, como lá no passado, existe um saber sobre nós, um saber suposto que dá suporte à transferência. O analista no lugar de transferência ocupa o lugar deste Outro que supostamente sabe sobre o analisando, mas, nas palavras de Lacan, “suposto saber algo de vocês, e que, de fato, não sabe nada de vocês.”.

No Seminário Livro VIII – A Transferência, Lacan demarca o momento em que Alcibíades considera ter encontrado na pessoa de Sócrates, um tesouro, objeto precioso e indefinível que fixa sua determinação, mas só o faz após ter desencadeado o seu desejo. O analisando, considera ter encontrado na pessoa do analista o mesmo tesouro, mas só o considera por ter despertado o seu desejo.

Acontece que no fundo, quanto ao SSS, o analista só deve saber aquilo que Sócrates declara saber a oráculo – sei que nada sei!

 

Samuel Gouvêa Pereira

 

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