Freud, antes de valer-se da regra fundamental, fez uso da hipnose como método terapêutico e não podemos negar a importância deste na compreensão da etiologia da histeria. Em seu estágio com Charcot, compreendeu que a natureza da histeria não era orgânica, mas outro fator apontava para a origem do sofrimento. Havia nos sintomas uma gênesi psíquica, estes resultavam de conflitos internos desconhecidos do próprio doente.

É interessante como a hipnose, mesmo em um horizonte distante, habita o imaginário popular no que diz respeito a prática psicanalítica. Certa feita, ao dizer que era psicanalista, escutei de uma jovem – ah, psicanalista não é aquele que hipnotiza as pessoas? Definitivamente não, o psicanalista não hipnotiza as pessoas! Mesmo Freud, ainda bem cedo, abandonou a hipnose como método terapêutico por conta da sua ineficácia, nas palavras de Freud, “é verdade que a sugestão pode provocar a cessação dos sintomas de uma doença – mas apenas por pouco tempo”, Freud observa em sua pratica que esses sintomas retornam e, ao retornarem, o paciente deve ser submetido novamente a sugestão hipnótica.

Anna Freud em seu livro, O Ego e os Mecanismos de Defesa, faz uma importante diferenciação entre a hipnose e a livre associação ou regra fundamental. No primeiro método, o ego é excluído do processo terapêutico, é convidado a se retirar. Esta é a condição que vale observar, no momento em que o hipnotizador acessa os conteúdos inconscientes do paciente hipnotizado, o ego está adormecido. Ao sair do transe, o sujeito é confrontado com estes conteúdos, de natureza penosa, que lhe são empurrados “goela abaixo”. Diante deste feito, o ego se sente ameaçado, em seguida, procura se conservar e defender diante destes conteúdos que lhe foram impostos, buscando uma serie de defesas e, assim, mandar de volta os intrusos ao mais profundo calabouço, lugar de onde nunca deveriam ter saído. Na livre associação, no lugar de se retirar, o ego é convidado a se calar para que o inconsciente emerja e para que Outro fale, quem se cala, no mínimo escuta. Uma vez calado o ego deve se abster de julgamentos de valor, racionalizações e inibições, o analisando deve deixar fluir livremente qualquer ideia que lhe vier a mente, verbalizando-as. Aqui podemos ver que o ego tem certo participação no processo, de algum modo ele é modificado ou, pelo menos, tocado, afinal de contas, ele está presente.

Acontece que, Anna Freud seguiu dando demasiada atenção ao ego, via neste, a única fonte de conhecimento, ali estava o principal aliado do analista, ambos, ego e psicanalista, deveriam caminhar juntos na terapia. Foi com base nestas e em outras ideias da mesma espécie que nasceu uma corrente dita psicanalista nos EUA, Heinz Hartmann funda então, a Psicologia do Ego.

A Psicologia do Ego buscava trabalhar e valorizar as funções do ego, como o pensamento, o comportamento, a percepção, a inteligência, entre outras, trata-se de uma espécie de corrente cognitivista. Aaron Beck pai da Terapia Cognitivo-Comportamental teve formação e treinamento psicanalítico, a partir de 1920 esta era a face da psicanálise que se alastrava pelos EUA, de qual fonte Beck bebeu?

Vale ressaltar que a Psicologia do Ego se identifica mais com uma anti-psicanálise. Todo este movimento não passou despercebido aos olhos de Lacan, antes foi identificado, denunciado e combatido em seu movimento de retorno a Freud. Diante deste panorama, Lacan viu a emergência de se retornar à descoberta de Freud, a coisa freudiana, ao inconsciente.

Não pretendo, de forma alguma, aludir um novo retorno a Freud, mas chamo atenção para a práxis do psicanalista. Com tamanha influencia das “psicologias do ego” não devemos cair na tentação de trabalhar com o fortalecimento deste, para que esteja pronto a assumir, com tamanha prepotência, as rédeas da sua existência e as chaves da sua casa, acreditando não existir vida para além do ego. Antes devemos perfurar o ego deixando-o mais flexível ao inconsciente deste sujeito entendendo que, aquele não passa de um lacaio.

O método de Freud não pode se distanciar das regras que foram legadas como condições de uma análise, sobretudo, para que esta ocorra, enquanto o analisando não deve se pré-ocupar com aquilo que diz, o analista não deve se pré-ocupar com aquilo que escuta, eis duas regras, verso e reverso, livre associação e atenção flutuante.

A psicanálise é o único rebento do inconsciente, é a psicanálise quem está disposta a escutar aquilo que fura o discurso consciente e ir para além da espuma deixada pelas ondas que simplesmente vem e vão em um eterno movimento. A escuta, assentada na atenção flutuante, permite a abertura do inconsciente e só assim, sendo a outra face de uma mesma moeda com a regra fundamental, Freud foi para muito além da hipnose.

 

Samuel Gouvêa Pereira